Psieducare

Indisciplina em Sala de aula: O que fazer?

Anúncios

Eu já fiz de tudo e os meus alunos continuam a colocar-me à beira de um ataque de nervos!

Ser professor é realmente gratificante, ter a oportunidade de transmitir conhecimentos e aprendizagens práticas, orientar futuros cidadãos, ter o futuro de uma geração nas suas mãos. Mas, o que não lhe disseram quando abraçou esta profissão é que iria ser colocado à prova todos os dias, pois muitas daquelas crianças inocentes, sentadas à sua frente e avaliadas diariamente por si, são capazes das maiores birras, das brincadeiras mais intoleráveis e tornar qualquer sala de aula numa verdadeira arena de gladiadores, cabendo a si gerir os seus maus comportamentos e impor as regras para um ambiente propício ao processo de ensino e aprendizagem.

É realmente uma enorme responsabilidade e, apesar de já ter feito de tudo, há sempre um ou outro aluno mais resistente que não muda a sua postura. Então, o que é que não funcionou? É isso que vamos explicar, analisando em pormenor as estratégias mais comuns.

1. Contactar o diretor da escola e/ou os Encarregados/as de Educação

À primeira vista, esta é uma medida tem tudo para ser eficaz: Se por um lado o diretor da escola, pela posição ocupada e o distanciamento mantido em relação aos alunos, consegue ser bastante intimidante e mais facilmente consegue impor regras e fazê-las cumprir, por outro é da responsabilidade do encarregado de educação educar o seu filho. E então por que é que não funciona?

Vamos por partes… Recorrer a esta medida, independentemente da entidade para qual a criança for encaminhada, vai rotulá-la como sendo problemática ao ponto do professor, só por si, não conseguir corrigir o seu comportamento, e já que a criança “tem a fama, vai querer ter o proveito” que é tanto maior consoante o reforço recebido pelos pares.

Já aqui temos um problema inicial, a criança toma conhecimento das expetativas que os adultos têm sobre si e age em conformidade, os pais são chamados à escola com vista à resolução do problema, sabendo à partida que a sua convocatória é sinónimo de “más notícias” e para “fazer queixas”, sentem que há uma transferência de responsabilidades para si para a correção de um comportamento, no qual não estavam presentes. Embora numa primeira abordagem possam tentar corrigir o problema, com recurso a castigos ou outras estratégias punitivas, com a repetição das ocorrências, vão-se sentir cada vez mais impotentes, esgotados e gradualmente vão começar a desistir.

Relativamente à direção da escola, esta só deve ser envolvida como último recurso, pois incute o medo e depois de a criança experienciar a temida ida à direção da escola e perceber que sobreviveu, deixa de ter algo a temer.

2. Exclusão do grupo

Se o mau comportamento ocorre em contexto de sala de aula, numa situação em que a criança estava desconfortável, contrariada e que exige um esforço mental para corresponder às expetativas do professor e sociais, retirá-la deste contexto pode ser interpretado como uma “premiação ao mau comportamento”.

Como tal, esta medida não tem um caráter corretivo e promove a alienação do aluno, sendo difícil a sua posterior integração na turma, sob o risco de rejeição do grupo de pares.

3. Trabalho suplementar

Trabalhos de casa extra, mais tempo na sala de aula a estudar, retirada do recreio para fazer novos trabalhos… são soluções que têm consequências contrárias, por parte do aluno, face ao trabalho e à escola.

Os trabalhos devem ser apresentados com uma oportunidade de aprenderem mais e não como um sacrifício com efeitos punitivos.

Pois se assim for pode produzir efeitos inversos como a descida das notas e aversão da criança face ao estudo.

4. Crítica ou ataque pessoal

Lembre-se que qualquer situação tem dois pontos de vista e que o seu está mais amadurecido. Quando a criança assume uma postura incorreta e/ou um comportamento indisciplinado, qualquer crítica ou ataque pessoal não exibe uma função corretiva, causando ressentimento que pode resultar num desinvestimento emocional e, como consequência, poderá afetar a sua autoestima, autoconceito e autoimagem em relação à escola e aos colegas.

A atenção prestada ao castigo e ao mau comportamento apenas o vai reforçar e não servir de modelo a reproduzir.

5. Recado na Caderneta

Qualquer mensagem escrita tem um recetor e um emissor, que estão diretamente envolvidos na interpretação do seu conteúdo que, por sua vez, está dependente das crenças, expetativas e experiências de cada um.

Um Encarregado de Educação com um historial de más experiências, por norma faz uma conotação negativa ou uma interpretação errónea da mensagem que deseja transmitir e adaptar o seu comportamento à mesma, desenvolvendo constrangimentos na vossa relação.

Já para não falar que em meios rurais, Portugal é afetado por uma elevada taxa de analfabetismo e iliteracia, onde muitos Encarregados de Educação muitas vezes dependem dos filhos para interpretar a mensagem escrita na caderneta, dando-lhes um poder que em nada beneficiará o seu comportamento.

6. A Simples retirada do recreio/ Suspensão do lanche

Com este castigo não está a corrigir um comportamento indesejado, mas sim a retirar a oportunidade de a criança desenvolver uma parte fundamental do seu crescimento, ou seja, a socialização, o descanso da mente e a interação com os pares que podem ser o modelo que a criança poderá não ter em casa.

Ao retirar o recreio à criança não está apenas a tirar uma coisa que ela gosta, mas também a impedir que ela corra e se movimente, atividades necessárias ao desenvolvimento de aptidões organizativas e espaciais e para o desgaste de energia acumulada e, consequentemente, o mau comportamento será replicado com maior intensidade.

Agora que já compreendeu o que não está a funcionar, o que poderia funcionar?

 

Márcia Ferreira, Técnica Superior de Educação

Anúncios

Anúncios